Brasil
O que muda com facções encaradas como terroristas pelos EUA
Quando esse debate parecia pacificado no Brasil, com o abandono por parte da oposição da ideia duramente combatida pelo governo Lula (PT), o governo dos Estados Unidos retoma o tema: nos últimos dias voltaram a crescer os sinais de que o país norte-americano pretende declarar como organizações terroristas as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC).
Se a proposta avançar nos EUA, corre-se o risco de se abrir uma espécie de “caixa de pandora” de sanções internacionais a pessoas e empresas, prejuízo financeiro, ameaça à soberania e até a eventualidade de ataques militares pontuais. Mas a definição externa também abriria oportunidades de cooperação mais ampla no combate ao problema.
“Os Estados Unidos veem as organizações criminosas brasileiras, inclusive o PCC e o CV, como ameaças significativas à segurança regional em função do seu envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional”, afirma em nota divulgada na terça-feira (10) o Departamento de Estado dos Estados Unidos. “Não antecipamos possíveis designações terroristas nem deliberações sobre esse tipo de classificação. Estamos plenamente comprometidos em adotar medidas apropriadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividade terrorista”, acrescenta.
A manifestação ocorre em meio a informações de bastidores publicadas na imprensa brasileira sobre a movimentação do governo norte-americano para oficializar a nova classificação nas próximas semanas. A inclusão das facções PCC e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas na mira dos EUA permite ao governo norte-americano adotar medidas legais, financeiras e operacionais específicas contra os grupos enquadrados.
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As medidas que os EUA podem adotar com o enquadramento de facções como grupos terroristas
As possibilidades do enquadramento das facções criminosas brasileiras como grupos terroristas nos EUA incluem a autorização para bloqueio de ativos financeiros e a proibição de transações e restrições migratórias contra integrantes ou associados.
Também torna crime nos Estados Unidos qualquer forma de apoio material aos grupos, incluindo dinheiro, treinamento, serviços ou fornecimento de equipamentos, além de ampliar o uso de instrumentos de inteligência e das capacidades operacionais do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, inclusive em ações unilaterais, dependendo da forma de aplicação da legislação — que no governo Donald Trump tem se mostrado bastante ampla.
Desde o ano passado, as Forças Armadas dos EUA atacaram diversas embarcações e mataram dezenas de pessoas em operações militares contra a atuação de organizações criminosas da região. Durante o governo Trump, outros grupos criminosos latino-americanos foram incluídos na lista oficial norte-americana de organizações terroristas, como o Cartel de Jalisco, do México, e o Tren de Aragua, da Venezuela.
Lula e Trump devem conversar sobre o tema
Segundo o promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo Lincoln Gakiya, os Estados Unidos não devem levar em consideração a opinião do governo brasileiro na discussão sobre classificar as facções do país como organização terrorista.
“Eles me disseram que estavam no Brasil para conhecer o funcionamento do PCC, para saber sobre a atuação internacional, e que não levariam em conta, pelo menos foi o que me foi dito, a opinião do governo brasileiro sobre os Estados Unidos classificarem ou não o PCC como organização terrorista por ser um ato interno, e não que diz respeito ao Brasil”, afirmou em entrevista à GloboNews na quarta (11).
Mesmo assim, existe a perspectiva de que o tema seja tratado entre Lula e Trump na viagem que o presidente brasileiro ficou de fazer para os EUA ainda neste semestre — inicialmente o encontro na Casa Branca seria em março, mas foi desmarcado por conta do início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã.
Na opinião de especialistas ouvidos pela reportagem da Gazeta do Povo, a situação traz tanto riscos quanto oportunidades. A promotora do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) Celeste Leite dos Santos ressalta que para o Brasil não haveria mudança automática na classificação jurídica dessas facções, nem imposição direta de obrigações penais ou militares. O ordenamento jurídico brasileiro continuaria regido por suas próprias leis, que, hoje, tratam essas organizações como entidades criminosas, não como grupos terroristas.
A situação pode fortalecer políticas públicas de Segurança Pública, no combate à lavagem de dinheiro e na proteção das vítimas, desde que o debate seja conduzido sem soluções simplistas.
Celeste Leite dos Santos, promotora do MP-SP
A promotora não acredita na possibilidade de ataques militares pontuais ao território brasileiro e nem em violação da soberania nacional, ações que violariam o direito internacional. “O risco maior não é bélico, ao meu ver, mas, sim, diplomático e financeiro, caso se construa uma narrativa internacional de que o Estado brasileiro é incapaz de conter organizações criminosas”, afirma.
“A consequência mais concreta seria a intensificação de controles financeiros internacionais, sobretudo por bancos correspondentes, plataformas de pagamento, fundos de investimentos e organismos que seguem padrões rígidos de compliance e de combate ao financiamento do terrorismo”, analisa ela.
Ainda de acordo com a promotora do MP-SP, não se pode ignorar o risco reputacional. “Investidores estrangeiros avaliam estabilidade institucional, previsibilidade regulatória e capacidade estatal de enfrentamento ao crime organizado”, diz.
“Se a narrativa internacional for mal conduzida, pode haver percepção, ainda que imprecisa, de fragilidade institucional. Por outro lado, o Brasil tem arcabouço legal robusto, instituições atuantes e cooperação internacional ativa, fatores que tendem a mitigar esse risco quando corretamente comunicados”, afirma Celeste.
Cooperação internacional no combate ao crime organizado tem potencial de ganhar força
Para a promotora do MP-SP, por outro lado, a medida tende a reforçar a cooperação internacional em matéria de inteligência financeira, bloqueio de ativos, extradições e troca de informações. Também pode ampliar o acesso a mecanismos internacionais de rastreamento de fluxos ilícitos, que, atualmente, são mais facilmente acionados em contextos de terrorismo.
“Além disso, a situação pode servir de impulso político e institucional para o fortalecimento de políticas públicas de Segurança Pública, no combate à lavagem de dinheiro e na proteção das vítimas, desde que o debate seja conduzido com responsabilidade e sem soluções simplistas ou espetacularização penal”, afirma a promotora do MP-SP.
A eventual decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas produz efeitos jurídicos, principalmente dentro da jurisdição norte-americana, com destaque para o campo financeiro e investigativo, ampliando mecanismos de bloqueio de ativos, rastreamento de fluxos financeiros e cooperação internacional, conforme aponta o advogado Fernando Capano, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) especializado em Direito Militar e Segurança Pública.
“Isso, contudo, não implica qualquer sanção automática ao Brasil, nem representa hostilidade ao Estado brasileiro, pois o alvo da medida são organizações criminosas específicas. Do ponto de vista econômico, penso que é pouco provável que tal classificação, por si só, provoque fuga relevante de investimentos. Tal medida pode gerar, no máximo, maior rigor nos mecanismos de compliance do sistema financeiro internacional”, avalia Capano.
Ele concorda que a iniciativa pode ter efeito potencialmente positivo ao ampliar a cooperação internacional no enfrentamento de organizações criminosas que já operam em redes transnacionais de tráfico, lavagem de dinheiro e contrabando.
“Facções como PCC e CV deixaram, há muito, de ser fenômenos exclusivamente domésticos, passando a integrar cadeias globais do crime organizado. Neste contexto, o fortalecimento da inteligência financeira e da cooperação investigativa internacional pode contribuir para atingir aquilo que, em regra, sustenta essas estruturas, que é a sua capacidade econômica”, afirma.
Independentemente do tratamento dado ao tema pelo governo dos EUA, o governo brasileiro não deve mudar o ordenamento jurídico nacional em relação a isso. O argumento central do Ministério da Justiça é que o terrorismo, conforme definido em tratados internacionais e na lei brasileira de 2016, exige motivação ideológica, política, religiosa ou xenofóbica. As facções brasileiras, por outro lado, operam sob a lógica do lucro e do domínio territorial comercial — são “empresas do crime”.
Brasil
Paraná quebra recorde na colheita da safra de verão
O estado do Paraná colheu 26,3 milhões de toneladas de grãos na safra de verão 2025/2026 e estabeleceu um novo recorde de produção para o período. O volume supera em 6% o ciclo anterior, que registrou 24,7 milhões de toneladas, de acordo com o boletim oficial divulgado pelo Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab).
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A boa safra de soja e a retomada da safra de milho explicam o recorde, informa o Deral. Segundo o levantamento, a safra de soja somou 21,8 milhões de toneladas produzidas, enquanto o milho chegou a 4,1 milhões de toneladas, ante as 3,1 milhões de toneladas da safra anterior.
“O que motivou essa retomada de uma safra recorde no verão foi que voltamos a plantar um pouco mais de milho nessa safra”, explica Hugo Godinho, engenheiro agrônomo e analista do Deral. “A área de primeira safra deste ano foi 30% acima da plantação de milho de verão, plantado entre setembro e outubro”, informa.
Segunda safra deve consolidar novo recorde de produção no Paraná
O bom desempenho da safra de verão é fundamental para um resultado expressivo no ano. “Para que se concretize uma safra recorde não só no verão, a gente precisa confirmar uma boa segunda safra”, afirma. A segunda safra 2025/2026 está bem encaminhada, diz o analista.
O principal destaque é o milho, cuja produção deve ficar na casa de 17,6 milhões de toneladas em uma área cultivada de 2,91 milhões de hectares. Segundo o Deral, a colheita da cultura teve início e atinge cerca de 3% da área total.
Os desafios para essa segunda safra, naturais do período de inverno, são os períodos mais críticos de geada, chuva e seca, sobretudo ao longo do mês de julho. Ainda assim, técnicos do órgão entendem que eventuais danos não devem alterar de forma profunda os números finais de produção neste momento.
Para Godinho, a safra de verão totalmente fechada e 6% superior à safra de verão anterior é um passo preponderante para um novo recorde, semelhante ao registrado ano passado. No consolidado de 2025, o total foi de 47,3 milhões de toneladas.
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Clima e tecnologia propiciam bom desempenho da safra no Paraná
Lucian Richard Ribeiro de Souza, do Departamento Técnico e Econômico Legal do Sistema Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), comemora o recorde. “O resultado é muito positivo”, afirma. “Não foi necessariamente uma surpresa, havia uma expectativa favorável em relação ao clima, e a gente sabe que os produtores, a cada ano, vêm se especializando, então era algo esperado”.
Somada à expansão da área plantada, Souza acrescenta como motivos que levaram ao bom resultado o trabalho realizado pelos produtores, na busca pela inserção de inovação tecnológica na área das lavouras, e o clima favorável, que ajudou o produtor.
“O sistema Faep tem grande participação nisso, através do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), dos sindicatos e da Federação, principalmente no viés de capacitação e na difusão de boas práticas agronômicas”, afirma.
Em 2025, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Paraná respondeu por 13,5% da participação nacional da produção de grãos. O estado ficou atrás apenas do Mato Grosso (32%). Goiás (11,3%), Rio Grande do Sul (9,3%), Mato Grosso do Sul (8,1%) e Minas Gerais (5,5%) completam a lista.
Brasil
Produto brasileiro de açaí conquista prêmio mundial
No interior da palmeira de açaí, há uma fibra que durante décadas foi descartada e na qual uma empreendedora brasileira vislumbrou potencialidade de negócio. O Gratine, palmito de açaí desenvolvido pela empresa Salada Amazônia, venceu um prêmio internacional do segmento e colocou um ingrediente amazônico, até então esquecido, no cardápio de chefs e no radar do mercado global.
A ideia nasceu de uma constatação simples: o açaizeiro já era matéria-prima consolidada no Brasil, mas suas fibras internas eram pouco aproveitadas comercialmente. A Salada Amazônia transformou esse resíduo em um palmito orgânico especialmente desenvolvido para grelhar — rico em fibras, com 5g de proteína e apenas 96kcal por unidade.
O produto chegou ao mercado com certificação orgânica, rastreabilidade garantida e adequação às exigências regulatórias de cinco destinos de exportação: Japão, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, Europa e Estados Unidos. O caminho não foi simples até alcançar o mercado internacional e à conquista do prêmio Wellnown Award 2026 (categoria “plant-based”) — o concuros reconhece produtos inovadores desenvolvidos por empresas de orgânicos e sustentáveis.
Logística é entrave: comunidades fornecedoras estão em regiões remotas da Amazônia
Grande parte das comunidades fornecedoras fica em regiões remotas da Amazônia, acessíveis apenas por via fluvial, em longas viagens para transporte da matéria-prima. Manter os padrões de certificação orgânica nessa cadeia exigiu estrutura, parcerias técnicas com a Embrapa Amazônia Oriental e mais de duas décadas de desenvolvimento do modelo de manejo sustentável dos açaizais nativos.
Hoje, a empresa opera 11 áreas certificadas. A fundadora do negócio, Mônica Rosa, evidencia que esses desafios são também oportunidades para demonstrar que a bioeconomia amazônica pode gerar produtos inovadores e competitivos.
Os planos incluem expandir as áreas certificadas, desenvolver novos produtos derivados da biodiversidade amazônica e consolidar a marca como referência internacional em alimentos amazônicos. A premiação, segundo Rosa, valida toda a cadeia produtiva construída ao longo dos anos. “O produto transforma os recursos da floresta em alto valor agregado, mantendo-a em pé e gerando renda local”.
Brasil
Casas de luxo em Balneário Camboriú consolidam status de Hamptons brasileiro
Um trecho de praias preservadas ao sul de Balneário Camboriú (SC) passou a concentrar casas de praia na faixa de R$ 20 milhões e viu o metro quadrado valorizar mais de 200% em cinco anos. Segundo a imobiliária J. Maurício, que atua há mais de 25 anos na região da Interpraias, a combinação de baixa densidade, oferta limitada e regras ambientais rígidas colocou o local no centro do foco de investidores como segunda moradia de alto padrão.
Mais que isso: embasa projeções de alta adicional de até 50% em dois anos. O movimento faz o litoral catarinense começar a repetir, em escala menor, a lógica dos Hamptons, luxuosa área costeira em Long Island, Nova York, onde casas de veraneio em áreas de baixa densidade passaram a ser vendidas por cerca de US$ 2,35 milhões nos negócios mais típicos e, em média, por perto de US$ 3,8 milhões no fim de 2025.
Até poucos anos atrás, a área de Balneário Camboriú era mais associada a pousadas familiares e praias agrestes — Estaleirinho, Estaleiro, Pinho, Taquaras, Taquarinhas e Laranjeiras — do que a casas de alto padrão. Enquanto a Praia Central verticalizava e ajudava a colocar o município no topo do ranking das cidades com metro quadrado residencial mais caro do país, com preço médio em torno de R$ 14,9 mil por metro quadrado, a Interpraias seguia com baixa ocupação e natureza preservada.
“Sempre foi o pedaço mais discreto da cidade, com menos barulho, menos movimento e um contato mais direto com a natureza”, resume o corretor Theo Girolamo, que atua na região. Para ele, esse desenho começou a mudar conforme incorporadoras e proprietários passaram a enxergar no trecho uma espécie de “reserva de escassez”.
São poucas frentes de mar disponíveis, boa parte em áreas de proteção ambiental, com gabaritos baixos e parâmetros de ocupação que reduzem a margem de adensamento futuro. “O que faz a Interpraias ser diferente é que, aqui, a verticalização não é uma opção”, acrescenta Maurício Girolamo, diretor-executivo da J. Maurício.
“As regras limitam o número de pavimentos e o quanto você pode ocupar do terreno, então a baixíssima densidade não é uma escolha de marketing, ela é estrutural”, acrescenta ele. De acordo com um levantamento feito pela imobiliária, o metro quadrado na região já subiu mais de 200% em cinco anos, impulsionado pela combinação de escassez de terrenos e entrada de projetos de padrão mais alto.
A mesma projeção fala em uma alta adicional de até 50% em dois anos, caso a demanda por segunda moradia se mantenha e o pipeline de lançamentos continue concentrado em empreendimentos de baixa densidade. O movimento ocorre em um município que está entre os primeiros no ranking nacional de metro quadrado residencial mais caro, segundo o FipeZAP, o que empurra parte dos investidores a buscar oportunidades fora da orla central.
A lógica dos Hamptons em escala catarinense: regras, segurança e capital paciente
Nos Hamptons, a base do mercado de segunda moradia de luxo combina baixa densidade, litoral preservado e estoque limitado de casas em bairros estritamente residenciais. Relatórios recentes da Douglas Elliman e da consultoria Miller Samuel mostram que o quarto trimestre de 2025 foi o mais caro da série: a mediana das vendas residenciais chegou a cerca de US$ 2,35 milhões e o preço médio ficou próximo de US$ 3,8 milhões, com participação recorde de imóveis acima de US$ 5 milhões nas transações.
“É um mercado em que o CEP e o entorno valem tanto quanto a casa”, resume uma das análises ao apontar o impacto da escassez de terrenos e das regras de zoneamento restritivas na precificação.
Na Interpraias, a leitura de quem atua no mercado é parecida, guardadas as proporções brasileiras. “O comprador de segunda moradia ou de longo prazo quer silêncio, privacidade, baixa densidade e um entorno preservado”, aponta Theo Girolamo.
“Quando isso vem acompanhado de oferta limitada, o imóvel deixa de valer só pela metragem e passa a valer pelo território.” Ele explica que a região está inserida na área de proteção ambiental Costa Brava, com plano de manejo que fixa limites de gabarito e de taxa de ocupação do solo por zoneamento.
Nas áreas planas, o regramento costuma permitir apenas poucos pavimentos e ocupação de uma fração do lote; na morraria, as restrições são ainda mais rígidas. Esse arcabouço urbanístico vem sendo reforçado por uma agenda de segurança e organização territorial.
Projeto apresentado pela recém‑criada Agência Interpraias, em articulação com a prefeitura de Balneário Camboriú e o conselho gestor da área de preservação ambiental, prevê a instalação de cerca de 100 câmeras de monitoramento em até dois anos, com investimento estimado em R$ 720 mil e cobertura de aproximadamente 10 quilômetros quadrados. Os equipamentos devem ser distribuídos entre as praias do Estaleirinho, Estaleiro, Pinho, Taquaras, Taquarinhas e Laranjeiras, com leitura automática de placas e, em alguns pontos, reconhecimento facial.
Para os players locais, o conjunto de regras ambientais, baixa densidade e sistema de monitoramento funciona como um “selo de previsibilidade” para quem mira capital de longo prazo.
“Quando existem normas claras e um nível mínimo de organização territorial, a previsibilidade entra no preço”, afirma Girolamo. “É o mesmo tipo de lógica que consolidou os Hamptons: a certeza de que o entorno não vai mudar radicalmente é tão valiosa quanto a casa em si.”
O que observar daqui para a frente
Para quem investe, a aposta é que a valorização não foi um ponto fora da curva. “Nos próximos cinco a dez anos, eu vejo a Interpraias com o metro quadrado mais caro de Balneário Camboriú e entre os mais caros do Brasil”, projeta o empresário Marcos Gracher, fundador da Wave Academias e integrante do conselho gestor da área de preservação ambiental Costa Brava.
Na leitura dele, a combinação de ocupação controlada, proximidade do centro e natureza preservada sustenta essa tese: “É uma região com pouco espaço para crescer, muito perto dos serviços da cidade e cercada de verde. Na minha visão, o futuro do investimento está ali.”
Do ponto de vista da forma urbana, a chave será o tipo de ocupação que a região vai aceitar daqui para a frente. “Vejo com bons olhos a valorização porque é praticamente o único lugar de Balneário onde ainda é possível morar em casa, perto do mar, em um bom terreno e sem edifícios colados dos dois lados”, diz o arquiteto e urbanista Carlos Vinicius Bortolato, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UniAvan.
Ele alerta, porém, que o desenho pode mudar se a pressão por novas vias e moradias em morro ganhar força. “O que mais preocupa no longo prazo é a combinação entre abrir novas vias nas encostas e aumentar a concentração de moradias; quanto mais acessos, mais pressão para construir, e isso pode comprometer justamente o diferencial das praias agrestes, que é a vegetação preservada, menos poluição e sensação de refúgio.”
Na prática, o próximo ciclo deve mostrar se a Interpraias se consolida como bairro de moradores de alta renda ou se caminha para uma lógica de segunda moradia mais parecida com destinos de veraneio clássicos. Bortolato lembra que há muita gente que vive ali e trabalha no centro, o que dificulta enxergar o trecho apenas como enclave de luxo.
Já investidores como Gracher olham para o mesmo território como parte de uma carteira de longo prazo, ancorada em escassez planejada e qualidade ambiental. Entre esses dois vetores é que a Interpraias deve responder, nos próximos anos, até que ponto quer se aproximar da lógica dos Hamptons ou construir um caminho próprio no litoral catarinense.
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