Brasil
Conclusão da Ferrovia Transnordestina: prazos e impactos
Após quase 20 anos de espera e diversas paralisações, a Ferrovia Transnordestina, iniciada em 2006, tem nova previsão de entrega total para 2028. O projeto busca ligar o interior do Nordeste ao Porto do Pecém, no Ceará, otimizando o escoamento de grãos e minérios com investimentos bilionários.
Qual é o atual estágio das obras da ferrovia?
Atualmente, o projeto apresenta um avanço físico global de aproximadamente 71%. As obras estão divididas em duas fases: a primeira, que liga o Piauí ao Porto do Pecém, está com cerca de 80% de conclusão e deve ser finalizada até 2027. Já a segunda fase, abrangendo outros trechos no Piauí, tem previsão de entrega para o ano de 2028.
Como a Transnordestina vai impactar o custo do transporte?
A ferrovia promete uma revolução logística ao reduzir a dependência de caminhões. Estimativas indicam que o custo do frete para cargas em geral pode cair até 53% em distâncias médias de 500 quilômetros. Isso torna os produtos brasileiros mais competitivos no mercado externo e reduz os gastos operacionais das indústrias locais.
Quais setores da economia serão os maiores beneficiados?
Os setores que movimentam grandes volumes, como o de grãos (milho e soja), minérios, fertilizantes e cimento, serão os principais favorecidos. Além da redução de custos, a ferrovia oferece maior previsibilidade e segurança no transporte, conectando áreas Produtoras do interior diretamente aos portos de exportação.
De onde vêm os materiais para a finalização da linha?
Uma etapa crucial foi vencida recentemente com a chegada de mais de 33 mil toneladas de trilhos vindos da China. Esse carregamento, somado ao estoque que já existia em Pernambuco, é suficiente para montar toda a extensão que falta do projeto. Os trilhos passam por um processo de soldagem antes de serem instalados nas frentes de trabalho.
Por que o projeto demorou tanto para sair do papel?
A ferrovia enfrentou uma série de paralisações, entraves contratuais e falta de recursos ao longo de duas décadas. Somente em 2023 o governo federal mobilizou novos aportes, somando R$ 3,6 bilhões para reativar os canteiros. Apesar dos atrasos históricos, o Ministério dos Transportes afirma que não há mais pendências ambientais ou desapropriações que travem o cronograma atual.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.
Brasil
Poucos produtores dominam mercado nacional da alcachofra
Uma única empresa familiar produz cerca de 90% de toda a alcachofra vendida no Brasil. A concentração é o retrato de um mercado hiperlocal: cerca de 50 produtores dividem 200 hectares de cultivo entre três municípios do interior paulista — Piedade, Ibiúna e São Roque —, sem volume destinado à exportação.
Nesse universo pequeno, a cidade de Piedade se destacou o suficiente para virar “capital nacional da alcachofra” por lei federal e transformar uma hortaliça de cultivo difícil em roteiro gastronômico capaz de atrair visitantes a mais de 15 bares, pousadas e restaurantes, durante os meses de setembro e outubro.
A história da alcachofra em Piedade começou há mais de 60 anos, no sítio da família Miyazaki, considerada pioneira no cultivo e na comercialização da planta na região. Hoje sob a marca Saibai, a família fornece a hortaliça para quase todo o país e responde por cerca de 90% da produção nacional.
O negócio por trás da concentração
Produtor do Sítio Miyazaki e da empresa Saibai Saladas, Otavio Freitas Neves integra a quarta geração da família à frente do negócio. A produção do sítio varia em torno de 20 mil caixas por ano, vendidas majoritariamente para São Paulo, mas distribuídas a outros estados por meio da Cooperativa Hortifruti Holambra.
“Produzimos como uma recordação da nossa origem e também para manter a memória e a gratidão pelo gesto que promoveu muita felicidade para a nossa família”, diz Neves, referindo-se ao amigo da família que presenteou os Miyazaki com as primeiras mudas.
Para um produtor entrar nesse mercado, a barreira não é pequena. Engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) Regional Sorocaba, José Gustavo Quagliato Pereira explica que a cultura da alcachofra em Piedade foi desenvolvida sem conhecimento técnico prévio sobre adubação ou clima ideal: a sabedoria foi construída por imigrantes italianos e japoneses ao longo de décadas, resultando em um produto com traços tipicamente brasileiros, como a preferência do mercado local pela coloração roxa, distinto da variedade tradicionalmente cultivada no exterior.
Toda a produção paulista é voltada ao consumo interno. A planta é comercializada predominantemente fresca — o botão floral e parte da haste —, abastecendo feiras selecionadas, redes de varejo de maior poder aquisitivo e restaurantes especializados. “Em menor escala, o coração da alcachofra é processado para conserva, mercado que convive com o produto importado de perfil mediterrâneo, mais presente nos supermercados”, afirma o especialista.
Uma cultura difícil de replicar
O motivo pelo qual poucos produtores sustentam esse mercado passa por um obstáculo concreto: a alcachofra é considerada uma das culturas mais exigentes do hortifruti. “São muitas condições que a planta exige, como clima com as médias mais amenas, irrigação constante, porém não demasiado, solo com drenagem, altitude, estações bem definidas e muito cuidado manual”, explica o produtor do Sítio Miyazaki.
A safra normalmente começa em julho e, em condições favoráveis, se estende até novembro — é possível antecipar o ciclo com o uso de um hormônio natural. Pereira, da Cati, aponta que o desafio para a produção está na escassez e no custo elevado de mão de obra especializada, já que boa parte do manejo da alcachofra exige trabalho manual qualificado.
Neves reforça o ponto: além do clima, a dificuldade de encontrar mão de obra dedicada a essa cultura tão exigente é um dos principais entraves do negócio, ao lado da necessidade de divulgar os benefícios da alcachofra a um público que ainda a conhece pouco.
Ainda assim, o setor mobiliza diretamente mais de 1 mil trabalhadores, entre produtores familiares e mão de obra contratada, em uma cadeia que Pereira descreve como de alto potencial de expansão — puxado pelo crescimento do turismo gastronômico e pelo fato de a alcachofra fresca seguir pouco explorada pelo público geral.
De hortaliça a destino gastronômico
Entre o campo e o prato, o resultado é uma cidade pequena que converteu a dificuldade de cultivar uma única hortaliça em identidade. O reconhecimento formal veio em 2025: por meio do Projeto de Lei 8.758/2017, Piedade recebeu o título de Capital Nacional da Alcachofra.
A adaptação da planta ao clima e a interligação entre a cultura e a cidade de Piedade são destacados também por José Alexandre de Souza Furquim, engenheiro agrônomo e Diretor da Associação Comercial e Industrial de Piedade.
A prefeitura da cidade criou o Roteiro Gastronômico da Alcachofra, realizado entre setembro e outubro, período em que mais de 15 bares, pousadas e restaurantes disputam a atenção do visitante com pratos como:
- fundo de alcachofra gratinado aos três queijos
- saltimboca de frango e alcachofra
- creme de alcachofra com camarão
- pastel de alcachofra
- sopa de alcachofra.
Fora dessa janela sazonal, restaurantes mantêm a alcachofra no cardápio o ano todo em Piedade. É o caso do Pouso e Gastronomia Ronco do Bugio, no Bairro dos Pires, que entre as opções oferece o risoto de alcachofra.
“Alguns pratos levam fundo de alcachofra em conserva, um ingrediente que garante qualidade e regularidade durante todo o ano. Em determinadas épocas, quando há disponibilidade de produtores, também trabalhamos com a flor de alcachofra fresca (in natura) em menus e experiências gastronômicas especiais”, exemplifica o proprietário do estabelecimento, Edson Cinto.
Há mais de 20 anos, a Pastelaria Calçadão criou o pastel de alcachofra, que se tornou um dos símbolos gastronômicos da cidade. “A pastelaria nasceu em 1996, após meus pais voltarem do Japão, e a confecção do pastel foi passada de uma geração para a outra. Tudo começou com os Miyazaki, que são nossos parentes e nos fornecem a matéria-prima”, conta Lucas Takashi Kunitaqui, atendente do estabelecimento.
Do Sítio Miyazaki, a proposta é abrir o espaço para os visitantes. “Estamos estudando abrir grupos de visitação no sítio para conhecer a safra da alcachofra e inauguramos recentemente nosso Empório da Alcachofra Saibai, com opções de alcachofra em conserva, salgados e tortas congeladas”, conta o produtor do negócio.
Brasil
Lula é mitômano e Bolsonaro é desqualificado
A candidata ao Senado pelo estado de São Paulo Soninha Francine (Cidadania) participou do programa Café com a Gazeta do Povo desta sexta-feira (4), dentro da série de entrevistas que o jornal está realizando neste período eleitoral.
Jornalista e comunicadora, Soninha Francine foi apresentadora da MTV Brasil, vereadora de São Paulo por dois mandatos e secretária de Direitos Humanos e Cidadania na gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), na cidade de São Paulo.
A candidata ao Senado afirmou na entrevista que a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) “ultrapassou os limites de suas prerrogativas” e defendeu a abertura de processos de impeachment contra ministros da Corte. Na avaliação dela, uma sequência de episódios envolvendo integrantes do tribunal exige reação do Congresso.
“Já foi longe demais tudo o que acontece no Supremo, há meses assistimos a atitudes que não são condizentes com ministros do STF”, disse Soninha Francine, comentando também sobre a falta de transparência sobre as viagens internacionais feitas por ministros da Corte para participar de simpósios e congressos.
“Acontecem grandes eventos na Europa sem sabermos as fontes para realização. Patrocinadores não são melhores do que cofres públicos, porque podem consolidar uma relação indevida entre o setor privado e o poder público”, disse ela.
Soninha Francine defende código de ética para ministros do STF
A discussão sobre um código de ética para ministros do Supremo entrou na avaliação da candidata. Para ela, a iniciativa ocorre em meio a questionamentos sobre a própria conduta de integrantes da Corte.
“Agora se discute um código de ética sobre a conduta dos ministros do STF, e há ministros com conduta questionável que são contra isso”, disse Soninha Francine. Ela defendeu que o Congresso reúne elementos suficientes para analisar pedidos de impeachment e que o debate deve avançar especialmente em relação aos ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes.
“Os absurdos se sucedem, não podemos perder a capacidade de nos escandalizar. Temos motivos mais do que suficientes para abrir processos de impeachment contra ministros do STF”, afirmou.
Candidata do Cidadania se posiciona como centro-esquerda
A candidata ao Senado por São Paulo afirmou ter uma trajetória política que passou por mudanças e que consegue dialogar com setores da direita para defender as próprias pautas. Ela criticou posições que considera radicais e apontou contradições entre discursos partidários e decisões de governo.
“Bandeiras radicais não se sustentam, não é possível governar com radicalismo. Eu não vejo problema em mudanças, o problema é quando a mudança não tem coerência interna”, afirmou. Soninha Francine citou a postura histórica da esquerda contra privatizações e comparou este discurso com medidas promovidas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ela avalia que partidos de esquerda passaram por mudanças que produziram efeitos. A candidata também afirmou que a própria posição política se tornou mais aberta ao diálogo. “Os partidos de esquerda mudaram no bom e no mau sentido, cada vez mais adeptos à intolerância. Eu mudei e consigo trabalhar com a direita, tentando defender as minhas pautas”.
Suplência no Senado vira alvo de críticas e proposta de mudança
Ao analisar o funcionamento do Senado, Soninha defendeu mudanças nas regras de suplência. Ela afirmou que o eleitor nem sempre consegue acompanhar o trabalho dos parlamentares e citou Marcos Pontes (PL) e Mara Gabrilli (PSD), senadores por São Paulo.
“Às vezes um senador faz um bom trabalho e não sabemos o que foi feito. Podemos nos surpreender: olha o que Marcos Pontes promoveu; Mara estava envolvida com isso e eu não fiquei sabendo… Mas não me parece que eles foram protagonistas”, afirmou.
A candidata também criticou a possibilidade de um suplente assumir um mandato sem ter recebido votos suficientes para ocupar diretamente a cadeira. “Temos um outro senador que era suplente do Major Olímpio e precisamos acabar com isso, precisamos rever a suplência. Não é possível que o segundo mais votado tenha a chance de assumir?”, questionou.
O senador Major Olímpio (PSL) faleceu em 2021, vítima de complicações da Covid 19. O empresário Alexandre Giordano (Podemos) assumiu a vaga.
Candidata defende uso medicinal e recreativo da cannabis
Na discussão sobre cannabis, Soninha Francine separou o uso medicinal da discussão sobre a legalização recreativa da maconha. Ela defendeu a ampliação das pesquisas e rejeitou que o tema seja tratado apenas sob uma perspectiva ideológica.
“Não pode haver controvérsia ideológica em torno da cannabis medicinal, há estudos no mundo inteiro sobre isso. Há não apenas os melhores, mas os únicos bons resultados para algumas doenças, como Parkinson, Alzheimer e autismo”, disse Soninha Francine.
A candidata citou Israel como referência no desenvolvimento de pesquisas e aplicações terapêuticas da cannabis. “Há tabus para serem enfrentados, não confiem em uma posição ideológica. Israel é um dos primeiros lugares onde os usos terapêuticos da cannabis prosperaram”, afirmou. “É preciso autorizar pesquisas para expandir possibilidades”, complementou.
Soninha Francine reconheceu que a legalização para uso recreativo envolve um debate mais complexo e avaliou que o Brasil ainda não reúne condições para avançar nessa discussão. “Em Israel também se avançou sobre a legalização para o uso recreativo de cannabis. É delicado tratar disso, o Brasil não está maduro para o debate”, disse ela.
“Criminalizar o aborto não resolve”, diz a candidata
Ao tratar do aborto, a candidata do Cidadania defendeu que o debate considere mais possibilidades do que a simples escolha entre legalização e proibição. Ela também destacou situações envolvendo relações sexuais não consensuais.
“Para todas as políticas sociais, eu sempre defendo um repertório de variadas possibilidades. Quando se fala em aborto, parece que só existem duas: acesso ao aborto legal e proibição total. Eu acho que nem uma coisa nem outra precisa ser impositiva”, afirmou.
Soninha Francine citou casos de gravidez decorrente de relações não desejadas e lembrou que a violência sexual também pode ocorrer dentro de uma relação conjugal. “É preciso colocar em pauta a situação de uma jovem que esteja grávida em função de uma relação não desejada. Não necessariamente em um beco escuro, mas também a da mulher que teve uma relação não consentida com o marido”, apontou Soninha Francine.
Para a candidata, a criminalização não elimina o problema e pode ampliar os riscos envolvidos. “Geralmente temos apenas duas opções extremadas, é muito difícil uma gravidez indesejada. Havendo uma decisão, há necessidade de oferecer condições para que isso não seja feito de uma forma cruel”, afirmou.
Candidata critica polarização e aponta semelhanças entre extremos
A candidata do Cidadania encerrou a avaliação sobre o cenário político criticando a polarização na política brasileira. Para ela, grupos que ocupam posições extremas adotam estratégias semelhantes, apesar das diferenças no discurso.
“Os chamados extremos são muito parecidos, são extremamente confrontantes, inimigos, mas com formas de conduzir muito parecidas: incitam o seu lado ao ódio pelo outro”, disse.
A candidata também criticou a divisão simplificada entre as defesas da esquerda e da direita. “É raso dizer que quem governa para o pobre é a esquerda e para os ricos é a direita. Tanto Bolsonaro quanto Lula têm falas machistas e populistas”, afirmou.
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As respostas de Soninha Francine ao pinga-fogo do Café com a Gazeta
Ao fim da entrevista, Soninha Francine foi questionada se é “a favor” ou “contra” temasdiversos, e foi convidada a opinar em poucas palavras sobre alguns temas. As respostas foram:
- Bets: “Contra; proibição pura e simples”
- Voto impresso: “Contra”
- Legalização do aborto: “A favor”
- Câmeras no uniforme do policial: “A favor”
- Legalização maconha: “A favor”
- Redução da maioridade penal: “A favor, em partes”
- Fim do foro privilegiado: “A favor”
- Audiência de custódia: “A favor se funcionar”
- Escala 6×1: “A favor, com ressalvas”
- Escola cívico-militar: “Depende”
- Impeachment de ministros do STF: “Claro”
- Teto de gastos: “A favor”
- Um grande político brasileiro: “Fernando Gabeira”
- Lula é: “Mitômano”
- Jair Bolsonaro é: “Desqualificado”
- Davi Alcolumbre: “Nocivo”
- André Mendonça: “Firme”
- Alexandre de Moraes: “Errado”
- 8 de Janeiro foi: “Problema de graves consequências”
Ao concluir, Soninha afirmou que pretende manter clareza sobre as posições que defenderá caso assuma um mandato. Ela disse que o eleitor poderá acompanhar suas decisões e também eventuais mudanças de opinião ao longo do mandato. “Eu mereço confiança e respeito porque as pessoas vão saber se eu mudar de opinião”, disse.
Gazeta do Povo realiza série de entrevistas
A Gazeta do Povo promove, no seu canal do YouTube, uma série de entrevistas com candidatos ao Senado nos estados do Paraná e de São Paulo. São convidados todos os candidatos cujos partidos contam com representatividade mínima no Congresso Nacional.
As entrevistas têm duração de 45 minutos e são realizadas ao vivo, no horário das 9h15 às 10h, dentro do programa Café com a Gazeta do Povo.
As entrevistas são veiculadas no canal da Gazeta do Povo no YouTube e no site do jornal.
Brasil
As propostas mais diferentes dos candidatos a presidente
Nem só más ideias são encontradas nos momentos mais polêmicos dos planos de governo apresentados pelos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano. Algumas iniciativas propostas até são interessantes, mas são tão mirabolantes ou idealistas que, pelo menos em um futuro próximo, são avaliadas como tendo chance zero de vingarem e serem adotadas no Brasil.
Um exemplo é a obrigatoriedade dos políticos e suas famílias de utilizarem apenas o atendimento disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), proposta pela candidata Samara Martins (UP). “Defendemos que governantes e legisladores utilizem a educação e a saúde pública”, afirma o plano de governo da candidata de esquerda. “Quem governa e decide quanto será investido no SUS e nas escolas públicas deve conhecer diretamente esses serviços e ter interesse concreto em garantir que funcionem com qualidade.”
O texto proposto sobre o tema completa com: “É absurdo que os governantes sigam usufruindo de serviços inacessíveis à maioria. Os políticos eleitos devem estar submetidos à mesma realidade e aos mesmos serviços que eles administram e destinam ao povo brasileiro”, completa o programa da candidata da UP.
O raciocínio pode ter seus méritos e possui potencial de amplo apelo popular, mas no plano de governo não há nenhuma palavra sobre como seria possível implementar a medida ou obrigar os políticos a isso. Falta combinar com os políticos de todos os matizes ideológicos de todas as esferas, tanto do Poder Executivo quanto do Poder Legislativo.
Para obrigar legalmente os políticos a utilizarem exclusivamente o Sistema Único de Saúde (SUS) e as escolas públicas, seria necessária uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) específica. A PEC precisa do voto de três quintos dos deputados (308 votos) e dos senadores (49 votos), em dois turnos de votação em cada casa.
Se uma lei comum fosse aprovada hoje, provavelmente seria imediatamente derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por violar princípios fundamentais da Constituição — mesmo uma PEC específica aprovada correria esse risco. O artigo 5º garante que o cidadão (incluindo o político) tem o direito de escolha sobre o próprio corpo, tratamentos e prestadores de serviços de saúde.
Impedir um grupo de cidadãos de acessar a rede privada violaria o princípio de igualdade civil. A iniciativa privada na saúde é livre e garantida pela Constituição. Proibir por lei que um cidadão compre um serviço privado legalizado infringe a ordem econômica do país.
Por fim, como qualquer alteração nesse sentido teria de ser feita e aprovada por ampla maioria dos políticos no Congresso Nacional, justamente parte do grupo diretamente afetado pela medida, ou seja, a chance de que o assunto prosperasse seria praticamente nula.
Extinção de municípios está entre as propostas dos candidatos a presidente
Dentre as propostas do candidato à Presidência da República do partido Missão, Renan Santos, está uma que propõe extinguir 70% dos 5.570 municípios do Brasil, de acordo com a contagem mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Hoje, a maior parte dos municípios brasileiros são fiscalmente inviáveis”, afirma o candidato em seu programa de governo, ao introduzir a questão.
Para resolver o problema, o Missão propõe o que chama de “Grande consolidação municipal”: a fusão de municípios pequenos em unidades administrativas maiores, “com escala suficiente para entregar serviços públicos de qualidade”. Segundo o programa, existem estudos que demonstram a possibilidade técnica de reduzir o número de municípios brasileiros em até 70%, de 5.570 para algo próximo de 1.656, “combinando contiguidade geográfica, complementaridade econômica e capacidades fiscais entre municípios vizinhos da mesma unidade da federação.”
A discussão é interessante e válida — no último ano, foram R$ 196 bilhões distribuídos para as prefeituras via Fundo de Participação de Municípios (FPM), valor maior que todo o gasto federal com o Bolsa Família, por exemplo, e que menos pulverizado talvez fizesse mais diferença na qualidade dos serviços públicos municipais, como educação infantil e rede de saúde pública. O que torna a proposta mirabolante é justamente a dificuldade política para sua implantação.
Para extinguir um município no Brasil, o processo legal é complexo. O caminho jurídico está definido no Artigo 18 (Parágrafo 4º) da Constituição Federal e envolve decisões federais, estaduais e a consulta direta à população local. A extinção pode ocorrer por fusão (união de dois ou mais municípios para criar um novo) ou por incorporação (quando um município deixa de existir e sua área passa a fazer parte de outro vizinho).
O Congresso Nacional precisa aprovar uma Lei Complementar estabelecendo o período permitido para que essas alterações ocorram, além de definir os critérios gerais que os estados devem seguir. Deve ser apresentado um estudo técnico detalhado que comprove a viabilidade econômica, financeira, social e ambiental da extinção. Esse documento serve para garantir que a incorporação da área por outro município não causará o colapso financeiro ou a piora dos serviços públicos na região afetada.
A população de todos os municípios envolvidos no processo precisa ser consultada diretamente, por meio de um plebiscito, e aprovar a mudança. Por exemplo, se o município A for extinto e incorporado ao município B, para tanto os eleitores de ambas as cidades devem votar majoritariamente “sim” no plebiscito.
Se a maioria votar “não” em alguma das cidades, o processo é cancelado. Caso a população aprove a extinção no plebiscito, a Assembleia Legislativa do respectivo estado precisa votar e aprovar uma lei estadual específica decretando oficialmente o fim do município e a nova divisão territorial.
Agora imagine este processo repetido quase 4 mil vezes, uma vez em cada uma das 70% de cidades a serem extintas, de acordo com o programa do Missão. Simplesmente não vai acontecer.
Em 2019, o governo federal enviou ao Congresso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Pacto Federativo. O texto previa a extinção automática de municípios com menos de 5 mil habitantes que não comprovassem uma arrecadação própria superior a 10% de sua receita total. A proposta gerou forte oposição de prefeitos e parlamentares e não avançou, mantendo as regras rigorosas descritas acima como o único caminho legal para extinguir uma cidade.
R$ 1 mil para cada bebê nascido
Boas intenções também podem render propostas mirabolantes no plano de governo dos candidatos à Presidência da República — sem necessariamente apontarem para uma boa política pública, com resultados esperados efetivos. É o caso da proposta de depositar R$ 1 mil para cada bebê nascido, presente no plano de governo de Romeu Zema (Novo).
“Depositar R$ 1 mil para cada brasileiro ao nascer, com o valor aplicado em fundos de ações e saque permitido apenas aos 18 anos, para estimular desde cedo a formação de patrimônio e a educação financeira”, afirma de maneira sucinta no plano de governo o candidato do Novo, sem fornecer mais detalhes sobre a proposta.
Apenas em 2024, por exemplo, o Brasil registrou cerca de 2,38 milhões de nascidos vivos, de acordo com os dados das Estatísticas do Registro Civil divulgados pelo IBGE. Se a proposta fosse levada a cabo, por estes números o custo inicial seria de pelo menos R$ 2,38 bilhões a mais por ano de impacto no orçamento federal — sem origem definida no plano de governo.
Os R$ 1 mil rendendo por 18 anos geram um benefício individual pequeno no futuro — considerado um ganho médio livre de inflação e custos de 10% ao ano (irreal, muito mais alto que o possível na média da realidade), depois de quase duas décadas os R$ 1 mil teriam virado pouco mais de R$ 5 mil.
Injetar esses mesmos R$ 2,5 bilhões anualmente na ampliação de creches em tempo integral ou na redução da mortalidade infantil durante 18 anos seguidos provavelmente geraria um retorno socioeconômico muito maior para o PIB. Outra crítica possível é que o programa daria o mesmo valor para o filho de um bilionário e para o filho de uma família em extrema pobreza.
Outro problema é que o governo aplicar recursos públicos em fundos de ações expõe o patrimônio (dos outros) à volatilidade da bolsa de valores, o que pode resultar em perda do que foi investido. Falta também combinar onde ficaria depositado o dinheiro, já que o candidato do Novo promete acabar com os bancos públicos como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, e quem seria o gestor desse fundo de investimento multibilionário (e até trilionário, depois de alguns anos).
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