Brasil
Baleias-francas chegam mais cedo a SC e antecipam temporada
A temporada 2026 das baleias-francas no sul de Santa Catarina começou mais cedo do que o previsto. O primeiro avistamento foi registrado ainda em maio e o primeiro filhote do ano apareceu em junho, na Praia de Itapirubá Norte, em Imbituba, em frente à sede do projeto “Franca Austral”, semanas antes do período tradicional, que concentra a presença dos animais entre julho e novembro, com pico em setembro.
A antecipação chama atenção porque foge de um ciclo bem definido. A baleia-franca-austral passa o verão, de dezembro a abril, nas altas latitudes próximas à Antártica, onde se alimenta intensamente de krill (pequenos crustáceos semelhantes ao camarão), e inicia a migração de reprodução entre maio e junho, conforme explica Camila Moraes dos Santos, oceanógrafa do Oceanic Aquarium, de Balneário Camboriú.
Mas essa não é a primeira vez que os animais se adiantam. Karina Groch, diretora de pesquisa do Instituto Australis/ProFranca, que monitora a espécie no litoral catarinense há décadas, conta que nos últimos anos há registros de os primeiros indivíduos chegarem um pouco mais cedo do que o período tradicional.
Ainda assim, ela evita cravar uma tendência. Apesar das observações antecipadas registradas, o instituto trata os dados como variação natural até que séries mais longas confirmem o contrário. O monitoramento contínuo, segundo Groch, é o que separa uma variação de uma mudança ligada ao clima.
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Região é a principal área reprodutiva da espécie no país
A baleia-franca-austral (Eubalaena australis) é uma das maiores baleias do litoral brasileiro, podendo atingir 17 metros e 60 toneladas. O porte se aproxima ao da jubarte, mas o comportamento afasta as duas.
“Enquanto a jubarte costuma permanecer em águas mais profundas durante a reprodução e é conhecida pelos saltos, a baleia-franca prefere águas rasas, calmas e protegidas. Em Santa Catarina, é comum observar mães com filhotes a poucos metros da praia”, aponta a oceanógrafa do Oceanic Aquarium.
A faixa entre Garopaba, Imbituba e Laguna reúne enseadas protegidas da ação direta das ondas, com águas rasas e temperatura mais amena do que a das áreas de alimentação antárticas. Groch explica que essas condições reduzem o gasto energético dos recém-nascidos, favorecem a termorregulação e oferecem abrigo para o descanso e a amamentação nas primeiras semanas de vida.
“Nossa série histórica de monitoramento mostra que essa região concentra a maior parte dos pares de mãe e filhote no Brasil, o que a caracteriza como a principal área reprodutiva da espécie no país“, afirma.
Espécie é classificada como vulnerável
Segundo a pesquisadora do Australis/ProFranca, nas últimas décadas a população de baleias-francas no Brasil apresentou uma recuperação significativa, resultado do fim da caça, combinado com a pesquisa científica de longo prazo, políticas públicas e fiscalização, mas ela ressalta que “esse processo ainda não está consolidado.” A pesquisadora explica que a recuperação é lenta já que “as fêmeas levam anos para atingir a maturidade e têm apenas um filhote a cada três ou quatro anos”.
A espécie segue classificada como vulnerável na lista nacional oficial de espécies ameaçadas de extinção, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e, por usar áreas costeiras na reprodução, permanece sob pressão humana. Santos alerta para colisões com embarcações, emalhamento em redes de pesca, aumento do tráfego marítimo, ruído subaquático e degradação do ambiente costeiro — riscos agravados porque mães e filhotes ficam longos períodos perto da superfície e da costa.
Essa vulnerabilidade explica por que em Santa Catarina a regra é observar as baleias da terra. O turismo de observação embarcado na Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca está proibido judicialmente desde 2012, a partir de ação civil pública movida pela Sea Shepherd Brasil.
A discussão sobre uma eventual retomada segue aberta: em 2024, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região suspendeu um edital de credenciamento de operadoras lançado pelo ICMBio, por entender que as medidas propostas não garantiam proteção adequada aos animais.
A proximidade das baleias com a arrebentação é o que torna a área delicada. Groch recomenda pontos elevados, dias de mar calmo, trilhas sinalizadas e respeito às áreas protegidas para quem deseja viver a experiência.
Rota da baleia franca movimenta cerca de 190 empresas
Gestora dos projetos de turismo do Sebrae-SC, Aline Miranda explica que a Rota da Baleia Franca — que integra os municípios de Garopaba, Imbituba e Laguna — nasceu de um problema clássico do litoral: o vazio fora do verão. Hoje um dos produtos turísticos prioritários da instituição para o sul do estado, a proposta beneficia cerca de 190 empresas, de hospedagem e alimentação a agências, comércio e prestadores de serviço, e foi selecionada para o projeto “Feel Brasil”, da Embratur, que promove turismo de experiência no país.
Estima-se que o ecossistema nacional de observação de baleias movimenta em torno de R$ 500 milhões por ano, avalia a gestora. “A baleia-franca atua como um importante indutor de fluxo turístico: ela motiva a viagem, mas seus impactos econômicos se distribuem por diferentes atividades e atrativos do território”, destaca Miranda.
Em torno do animal-âncora surgiram o “Tour Baleeiro”, o “Safari Baleia”, o “Festival Gastronômico da Baleia Franca” e o “Expresso Baleia Franca”, além de roteiros culturais no Centro Histórico de Laguna.
Onde observar em terra
A observação de baleias-franca se espalha por mais de 30 praias, mirantes e áreas naturais dos três municípios da rota. Entre os principais pontos destão:
- Imbituba: Praia de Itapirubá Norte abriga o Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca e o Centro de Visitantes do Instituto Australis, além de concentrar grande parte dos registros da espécie no país; costões da Ribanceira, de Ibiraquera, da Praia do Rosa e da Praia da Vila também funcionam como mirantes naturais para acompanhar mães e filhotes em águas rasas.
- Garopaba: costões entre as praias centrais e enseadas vizinhas oferecem vista para enseadas abrigadas, usadas como áreas de descanso e amamentação.
- Laguna: Farol de Santa Marta e costão da Praia do Gi estão entre os cenários mais procurados para ver baleias-francas se aproximando da linha de arrebentação.
Baleias-francas viram tema de exposição em Florianópolis
Enquanto a Rota da Baleia Franca recebe mães e filhotes nas enseadas do litoral, a capital do estado trata a temporada também como assunto de educação ambiental. No último dia 15, a prefeitura de Florianópolis abriu, na sede da Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram), Monumento Natural Municipal da Lagoa do Peri, a II Exposição Baleia Franca Austral, com programação gratuita até 15 de setembro, das 8h às 17h.
A mostra reúne exposição educativa, ossos de baleia, palestras, oficinas, passeios de caiaque e stand-up paddle na Lagoa do Peri, tour histórico guiado na Armação e atividades de avistamento nas praias do sul da Ilha. No saguão da Floram, um conjunto de esculturas de baleia-franca e filhote em estrutura metálica revestida de acrílico transparente, com cerca de 5 metros e 1,6 metro de comprimento, foi instalado como se flutuasse sobre o espaço da exposição; outra escultura pode ser vista na praia do Caldeirão, em frente à lagoa.
Serviço: Exposição Baleia Franca Austral
- Local: sede da Floram, Monumento Natural Municipal da Lagoa do Peri, Sul da Ilha, Florianópolis
- Período: até 15 de setembro
- Horário: todos os dias, das 8h às 17h
Brasil
veja fotos das manifestações de 7 de setembro
Além dos tradicionais gritos de “Fora Lula” e “Fora Moraes”, as manifestações de 7 de setembro marcadas para esta segunda-feira (7) em diversas cidades do Brasil também apresentam faixas, bandeiras e palavras de ordem em apoio ao ministro André Mendonça. O magistrado foi o responsável pela retirada, na última terça-feira (1º), do sigilo de mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Na manhã desta segunda-feira (7), foram registradas manifestações em Brasília, organizadas pelo ex-desembargador Sebastião Coelho e pelo Partido Liberal (PL) Manifestantes também se reuniram em Belo Horizonte (MG), Goiânia (GO), Salvador (BA) e Maceió (AL).
Em São Paulo, a concentração está prevista para 15h na Avenida Paulista, com a presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, e de outros lideranças da direita brasileira.
Durante o dia também são esperadas mobilizações em cidades como Rio de Janeiro (RJ), Goiânia (GO), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Joinville (SC), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Vila Velha (ES), Natal (RN), Fortaleza (CE), Aracaju (SE) e João Pessoa (PB).
Veja a seguir fotos de manifestações desta segunda-feira (7).
Brasil
entenda a história por trás da Independência do Brasil
O 7 de setembro é celebrado no Brasil como o Dia da Independência, em referência ao processo de ruptura política com Portugal iniciado oficialmente em 1822. A data, porém, representa apenas um dos momentos de uma transformação que começou antes e só foi consolidada anos depois.
Além da importância histórica, o feriado de 7 de setembro também costuma gerar dúvidas sobre o funcionamento do comércio e de outros serviços e sobre os direitos de quem precisa trabalhar na data. Em 2026, o feriado cai em uma segunda-feira.
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7 de setembro marca a Independência do Brasil
Em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro, então príncipe regente, declarou a ruptura política com Portugal às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo. O episódio ficou conhecido como o Grito do Ipiranga e se transformou no principal símbolo da Independência do Brasil.
Segundo Sérgio Czajkowski Jr., professor dos cursos de graduação e pós-graduação do UniCuritiba, o episódio deve ser entendido dentro de um contexto muito mais amplo. O processo foi influenciado pelo Iluminismo, pela ascensão da burguesia europeia e pela Revolução Francesa, além das transformações provocadas pelas guerras napoleônicas.
A invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte levou a família real portuguesa a se transferir para o Brasil, em 1808. Anos depois, em 1815, o Brasil foi elevado à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves. A permanência de Dom Pedro no território brasileiro e os conflitos crescentes entre as elites locais e as Cortes portuguesas contribuíram para o processo que culminaria na separação.
Czajkowski ressalta que a Independência não foi resultado de um único acontecimento. Em janeiro de 1822, por exemplo, ocorreu o chamado Dia do Fico, quando Dom Pedro decidiu permanecer no Brasil apesar das ordens para retornar a Portugal.
“O 7 de setembro é um marco, mas faz parte de um processo que começou antes e continuou depois dele”, explica o professor.
A separação também não significou uma ruptura imediata em todos os aspectos. Portugal só reconheceu oficialmente a independência brasileira em 1825. Além disso, a estrutura social do país praticamente não foi alterada: a escravidão continuou e as relações de poder permaneceram concentradas nas elites.
O que foi o Grito do Ipiranga?
A imagem mais conhecida da Independência mostra Dom Pedro montado em um cavalo, levantando a espada e proclamando “Independência ou Morte”. A cena, entretanto, é uma representação construída posteriormente e não deve ser confundida com uma fotografia do episódio.
O professor explica que há uma simplificação histórica ao atribuir a Dom Pedro, sozinho, o protagonismo pela independência. Segundo ele, o príncipe regente foi utilizado pelas elites como uma figura capaz de conferir legitimidade à ruptura e reduzir o risco de um conflito mais amplo com Portugal.
Também não há comprovação de todos os detalhes tradicionalmente associados ao episódio. É provável, por exemplo, que Dom Pedro estivesse montado em uma mula, meio de transporte mais adequado às condições da região, e não no imponente cavalo representado nas pinturas. Tampouco há comprovação documental de que o famoso grito tenha ocorrido exatamente como aparece nos livros escolares.
“Dom Pedro I, simbolicamente, ‘apareceu na foto’ – ou, na época, na pintura”, afirma Czajkowski.
A famosa pintura “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, foi produzida décadas depois, em 1888, e ajudou a consolidar no imaginário nacional a versão heroica do episódio. Para o historiador, a importância do 7 de setembro está justamente em ter cristalizado uma data específica para representar a formação do Estado brasileiro.
7 de setembro é feriado nacional?
Sim. O 7 de setembro é feriado nacional, e não ponto facultativo. A data foi incluída entre os feriados nacionais pela Lei nº 662, de 1949. Atualmente, a legislação que lista os feriados nacionais é a Lei nº 10.607, de 2002, que manteve o 7 de setembro entre as datas oficiais.
Na prática, empregados têm direito ao descanso no feriado, mas existem atividades que podem funcionar nessas datas, desde que observadas as regras previstas na legislação e, quando aplicável, em convenções ou acordos coletivos.
“Em regra, todos os empregados têm direito à folga no feriado de 7 de setembro”, explica Lenara Moreira, advogada especialista em Direito do Trabalho do escritório Gasam Advocacia.
Segundo ela, o trabalho pode ser exigido em atividades autorizadas a funcionar em feriados, incluindo determinados serviços essenciais. Comércio, shoppings, supermercados, restaurantes e hospitais podem estar submetidos a regras específicas. Jornadas diferenciadas, como a escala 12 por 36, também possuem regulamentações próprias.
Por isso, a regra aplicável pode variar de acordo com a categoria profissional e a norma coletiva correspondente.
Quem trabalha no feriado recebe em dobro?
Em geral, o trabalho realizado no feriado deve ser remunerado em dobro quando não houver folga compensatória. A jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho estabelece que o trabalho em domingos e feriados não compensado deve ser pago em dobro.
Assim, a empresa pode conceder uma folga compensatória, observadas as regras aplicáveis, em vez do pagamento em dobro. A advogada ressalta que a existência de acordo ou convenção coletiva pode estabelecer condições específicas para determinadas categorias.
No caso de trabalhadores que tiverem problemas com o pagamento ou com a compensação, a orientação é guardar documentos que comprovem o trabalho, como cartão-ponto, escala e mensagens. O empregado pode procurar o sindicato da categoria, um advogado ou o Ministério do Trabalho para buscar a regularização.
Como o 7 de setembro é comemorado?
A principal tradição é a realização de desfiles cívico-militares em diferentes cidades brasileiras. A data também é marcada por cerimônias oficiais, apresentações de forças de segurança e atividades relacionadas à história e ao patriotismo.
A maneira de celebrar, entretanto, mudou ao longo do tempo. Segundo Czajkowski, os desfiles escolares tiveram participação mais expressiva em décadas passadas, especialmente durante o regime militar.
Atualmente, a presença costuma ser mais concentrada nas Forças Armadas, polícias militares e corpos de bombeiros, embora algumas cidades mantenham desfiles com participação de escolas.
Além das comemorações oficiais, o feriado também é utilizado para manifestações políticas. Em São Paulo, está previsto para este 7 de setembro um ato na Avenida Paulista convocado por lideranças da direita, com concentração marcada para as 15h.
A mobilização tem como mote “Fora Lula, Fora Moraes” e “É agora ou nunca” e reúne políticos do PL e de outras siglas, além de lideranças religiosas.
A manifestação ocorre em meio à repercussão de mensagens envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o empresário Daniel Vorcaro. Atos semelhantes já ocorreram na Paulista em anos anteriores, transformando o feriado da Independência também em uma data recorrente para manifestações de oposição ao governo federal e ao Judiciário.
Brasil
Poucos produtores dominam mercado nacional da alcachofra
Uma única empresa familiar produz cerca de 90% de toda a alcachofra vendida no Brasil. A concentração é o retrato de um mercado hiperlocal: cerca de 50 produtores dividem 200 hectares de cultivo entre três municípios do interior paulista — Piedade, Ibiúna e São Roque —, sem volume destinado à exportação.
Nesse universo pequeno, a cidade de Piedade se destacou o suficiente para virar “capital nacional da alcachofra” por lei federal e transformar uma hortaliça de cultivo difícil em roteiro gastronômico capaz de atrair visitantes a mais de 15 bares, pousadas e restaurantes, durante os meses de setembro e outubro.
A história da alcachofra em Piedade começou há mais de 60 anos, no sítio da família Miyazaki, considerada pioneira no cultivo e na comercialização da planta na região. Hoje sob a marca Saibai, a família fornece a hortaliça para quase todo o país e responde por cerca de 90% da produção nacional.
O negócio por trás da concentração
Produtor do Sítio Miyazaki e da empresa Saibai Saladas, Otavio Freitas Neves integra a quarta geração da família à frente do negócio. A produção do sítio varia em torno de 20 mil caixas por ano, vendidas majoritariamente para São Paulo, mas distribuídas a outros estados por meio da Cooperativa Hortifruti Holambra.
“Produzimos como uma recordação da nossa origem e também para manter a memória e a gratidão pelo gesto que promoveu muita felicidade para a nossa família”, diz Neves, referindo-se ao amigo da família que presenteou os Miyazaki com as primeiras mudas.
Para um produtor entrar nesse mercado, a barreira não é pequena. Engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) Regional Sorocaba, José Gustavo Quagliato Pereira explica que a cultura da alcachofra em Piedade foi desenvolvida sem conhecimento técnico prévio sobre adubação ou clima ideal: a sabedoria foi construída por imigrantes italianos e japoneses ao longo de décadas, resultando em um produto com traços tipicamente brasileiros, como a preferência do mercado local pela coloração roxa, distinto da variedade tradicionalmente cultivada no exterior.
Toda a produção paulista é voltada ao consumo interno. A planta é comercializada predominantemente fresca — o botão floral e parte da haste —, abastecendo feiras selecionadas, redes de varejo de maior poder aquisitivo e restaurantes especializados. “Em menor escala, o coração da alcachofra é processado para conserva, mercado que convive com o produto importado de perfil mediterrâneo, mais presente nos supermercados”, afirma o especialista.
Uma cultura difícil de replicar
O motivo pelo qual poucos produtores sustentam esse mercado passa por um obstáculo concreto: a alcachofra é considerada uma das culturas mais exigentes do hortifruti. “São muitas condições que a planta exige, como clima com as médias mais amenas, irrigação constante, porém não demasiado, solo com drenagem, altitude, estações bem definidas e muito cuidado manual”, explica o produtor do Sítio Miyazaki.
A safra normalmente começa em julho e, em condições favoráveis, se estende até novembro — é possível antecipar o ciclo com o uso de um hormônio natural. Pereira, da Cati, aponta que o desafio para a produção está na escassez e no custo elevado de mão de obra especializada, já que boa parte do manejo da alcachofra exige trabalho manual qualificado.
Neves reforça o ponto: além do clima, a dificuldade de encontrar mão de obra dedicada a essa cultura tão exigente é um dos principais entraves do negócio, ao lado da necessidade de divulgar os benefícios da alcachofra a um público que ainda a conhece pouco.
Ainda assim, o setor mobiliza diretamente mais de 1 mil trabalhadores, entre produtores familiares e mão de obra contratada, em uma cadeia que Pereira descreve como de alto potencial de expansão — puxado pelo crescimento do turismo gastronômico e pelo fato de a alcachofra fresca seguir pouco explorada pelo público geral.
De hortaliça a destino gastronômico
Entre o campo e o prato, o resultado é uma cidade pequena que converteu a dificuldade de cultivar uma única hortaliça em identidade. O reconhecimento formal veio em 2025: por meio do Projeto de Lei 8.758/2017, Piedade recebeu o título de Capital Nacional da Alcachofra.
A adaptação da planta ao clima e a interligação entre a cultura e a cidade de Piedade são destacados também por José Alexandre de Souza Furquim, engenheiro agrônomo e Diretor da Associação Comercial e Industrial de Piedade.
A prefeitura da cidade criou o Roteiro Gastronômico da Alcachofra, realizado entre setembro e outubro, período em que mais de 15 bares, pousadas e restaurantes disputam a atenção do visitante com pratos como:
- fundo de alcachofra gratinado aos três queijos
- saltimboca de frango e alcachofra
- creme de alcachofra com camarão
- pastel de alcachofra
- sopa de alcachofra.
Fora dessa janela sazonal, restaurantes mantêm a alcachofra no cardápio o ano todo em Piedade. É o caso do Pouso e Gastronomia Ronco do Bugio, no Bairro dos Pires, que entre as opções oferece o risoto de alcachofra.
“Alguns pratos levam fundo de alcachofra em conserva, um ingrediente que garante qualidade e regularidade durante todo o ano. Em determinadas épocas, quando há disponibilidade de produtores, também trabalhamos com a flor de alcachofra fresca (in natura) em menus e experiências gastronômicas especiais”, exemplifica o proprietário do estabelecimento, Edson Cinto.
Há mais de 20 anos, a Pastelaria Calçadão criou o pastel de alcachofra, que se tornou um dos símbolos gastronômicos da cidade. “A pastelaria nasceu em 1996, após meus pais voltarem do Japão, e a confecção do pastel foi passada de uma geração para a outra. Tudo começou com os Miyazaki, que são nossos parentes e nos fornecem a matéria-prima”, conta Lucas Takashi Kunitaqui, atendente do estabelecimento.
Do Sítio Miyazaki, a proposta é abrir o espaço para os visitantes. “Estamos estudando abrir grupos de visitação no sítio para conhecer a safra da alcachofra e inauguramos recentemente nosso Empório da Alcachofra Saibai, com opções de alcachofra em conserva, salgados e tortas congeladas”, conta o produtor do negócio.
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