
Brasil
Cadeia bilionária da agroindústria move economia de Chapecó
A força da agroindústria transformou o município de Chapecó, localizado na região oeste de Santa Catarina, em um dos principais polos de produção de proteína animal do país. No centro dessa engrenagem está a Aurora Coop, cooperativa que reúne milhares de produtores rurais e mais de 50 mil trabalhadores.
A Aurora Coop encerrou 2025 com receita operacional bruta de R$ 26,9 bilhões, crescimento de 8,3% em relação ao ano anterior. O lucro nas cooperativas somaram R$ 1,2 bilhão, um avanço de 43,5% — o sistema Aurora Coop reúne 14 cooperativas agropecuárias, cerca de 87 mil famílias de produtores e 50,4 mil funcionários distribuídos em unidades industriais, comerciais, logísticas e administrativas em 15 estados brasileiros.
De acordo com o presidente da empresa, Neivor Canton, o modelo cooperativista é a base da expansão do negócio e da capilaridade da cadeia produtiva. “Mais de 150 mil famílias participam desse sistema produtivo que leva alimentos do campo para o Brasil e para mais de 80 países”, afirma.
Cooperativa responde por 10% dos empregos formais de Chapecó
O impacto econômico da cooperativa é bastante perceptível em Chapecó. Segundo o prefeito João Rodrigues (PSD), a Aurora Coop responde sozinha por mais de 10% dos empregos formais do município. “A cooperativa tem cerca de 13 mil funcionários na cidade”, afirma.
Esse volume de empregos ajuda a explicar o dinamismo econômico da cidade catarinense. A renda gerada pela agroindústria movimenta comércio, serviços e o mercado imobiliário, além de ampliar a arrecadação municipal.
“É a empresa que mais movimenta a economia do município. No troféu ‘O Desbravador’ do ano passado, ela ficou em primeiro lugar na categoria Grande Empresa Industrial, com valor adicionado de R$ 1,6 bilhão, levando em conta o ano base de 2023”, exemplifica.
Além disso, Chapecó é o município que mais produz carnes em Santa Catarina. De acordo com dados do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa), a produção chega a cerca de 588 mil toneladas por ano.
O total reúne suínos, frangos, perus e bovinos. Parte significativa dessa produção passa pelas unidades da Aurora Coop instaladas na cidade, incluindo frigoríficos e plantas industriais de processamento.
O prefeito ressalta que a presença da agroindústria cria uma cadeia econômica que vai além das granjas e frigoríficos. O transporte de animais e alimentos movimenta transportadoras, oficinas mecânicas, postos de combustível e empresas de logística. A indústria demanda equipamentos, manutenção, tecnologia e serviços especializados.
Segundo Rodrigues, cada emprego direto na agroindústria acaba gerando outros postos de trabalho na economia local. “O efeito começa no produtor rural, passa pela indústria e chega ao transporte, aos fornecedores e ao comércio. É uma cadeia muito grande que envolve milhares de prestadores de serviço”, diz.
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Uma cadeia produtiva que começa no campo
A estrutura produtiva da cooperativa se apoia em um modelo típico do agronegócio do Sul, que é a integração entre indústria e pequenos produtores. Nas propriedades rurais, famílias criam suínos e aves ou produzem leite sob orientação técnica da cooperativa. Os animais e a matéria-prima seguem depois para as unidades industriais.
Em 2025, as plantas da Aurora abateram 8,2 milhões de suínos, crescimento de 2,6% em relação ao ano anterior. Além disso, as nove unidades de aves processaram 347,9 milhões de frangos, alta de 1,4%.
A cooperativa também fortaleceu sua atuação no setor de lácteos. Ao longo do ano passado, foram captados cerca de 489 milhões de litros de leite. A estratégia inclui a aposta em produtos de maior valor agregado.
Em 2025, a Aurora Coop incorporou a marca catarinense Gran Mestri, de Guaraciaba, conhecida pela produção de queijos especiais como grana, parmesão,brie e gorgonzola.
Para o secretário estadual da Indústria, Comércio e Serviços, Silvio Dreveck, o crescimento de cooperativas como a Aurora Coop ajuda a explicar a posição de destaque de Santa Catarina no agronegócio brasileiro. Na visão de Dreveck, o cooperativismo teve papel fundamental nesse processo, pois reúne milhares de produtores e fortalece toda a cadeia produtiva.
“Esse modelo gera renda no campo, fortalece os municípios e cria empregos em toda a cadeia produtiva, da produção rural à indústria e à logística”, reforça.
Cooperativa aposta em presença global por meio de exportações
Embora o mercado interno ainda responda pela maior parte das vendas da Aurora Coop, as exportações seguem sendo um pilar importante do negócio. No último ano, as vendas externas somaram R$ 9,1 bilhões, o equivalente a 34,2% da receita total da cooperativa.
A carne suína respondeu por R$ 4,3 bilhões desse volume, enquanto a carne de frango gerou R$ 4,8 bilhões em exportações. A cooperativa responde por 19,7% das exportações brasileiras de carne suína e por 8,4% das vendas externas de carne de frango.
Entre os principais destinos estão países do Oriente Médio, Japão, China, Coreia do Sul, Cingapura, Europa e América do Norte.
Brasil
Fazenda do Exército no RS cria cavalos militares

A Coudelaria de Rincão, em São Borja (RS), é a única unidade do Exército Brasileiro dedicada à criação e ao treinamento de cavalos militares. Com mais de 15 mil hectares, a fazenda produz animais para patrulhamento, cerimoniais e intercâmbios com outros países da América Latina.
O que é uma coudelaria e qual a sua função no Exército?
Diferente de um haras, que é uma propriedade privada, uma coudelaria é um centro de criação de cavalos gerido pelo Estado ou militares. Em São Borja, a unidade de Rincão concentra o nascimento, a criação e o treinamento dos animais que compõem o arsenal de guerra brasileiro, atuando em combates, patrulhas de fronteira e eventos cerimoniais onde veículos não conseguem chegar.
Quanto tempo leva para formar um cavalo militar?
O processo é cuidadoso e exige um planejamento de cinco anos. Tudo começa com a organização financeira e o emprenhamento das éguas. Após o nascimento, os potros vivem três anos no campo antes de iniciarem a doma e o treinamento técnico. Atualmente, a unidade entrega cerca de 150 a 170 animais prontos para o serviço por ano, o que equivale a um cavalo a cada dois dias.
Quais são as principais raças criadas na fazenda gaúcha?
O destaque é o Brasileiro de Hipismo (BH), com mais de 800 exemplares voltados para equitação e desporto. Também são criados o Puro-Sangue Inglês, o Bretão (usado estrategicamente na reprodução como receptora de embriões), o Cavalo Crioulo (preferido para patrulhamento ostensivo policial) e o Polo Argentino. Cada raça é escolhida por suas aptidões físicas e cardiorrespiratórias.
Para onde são enviados esses animais?
Os cavalos atendem diversas frentes: os regimentos de guarda em Brasília (Dragões da Independência), unidades no Rio de Janeiro e Porto Alegre, e a Escola de Equitação do Exército. Além disso, as Polícias Militares estaduais e a Força Aérea Brasileira utilizam os equinos para choque e patrulha. Há também intercâmbios genéticos e envio de animais para a Argentina e o Paraguai.
Por que o número de cavalos militares diminuiu ao longo dos anos?
No início da Segunda Guerra Mundial, o Brasil possuía quase 23 mil cavalos. Com a mecanização das Forças Armadas e o uso de tanques e veículos blindados, a necessidade reduziu drasticamente. Atualmente, o efetivo total é de 2.181 animais. Em 1988, o Exército unificou todas as suas antigas coudelarias em Rincão devido à grande área disponível e à tradição gaúcha na criação equina.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.
Brasil
Fazenda no RS concentra criação de cavalos militares do Exército
Uma propriedade rural em São Borja, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina, abriga uma das maiores criações de cavalos de raça do país. A área possui 15.362 hectares, aproximadamente 15 mil campos de futebol, o que corresponde a cerca de 5% do território do município, e reúne aproximadamente 1 mil animais.
No local funciona a Coudelaria e Campo de Instrução de Rincão, que concentra o nascimento e a criação dos equinos utilizados pelo Exército brasileiro. A palavra coudelaria deriva do termo “coudel”, usado em Portugal para designar o capitão de cavalaria. Diferente de haras, termo usado para propriedades privadas, a coudelaria é associada à criação de equinos militares ou de propriedade estatal.
“É muito amplo o empenho militar do cavalo, eles fazem parte do arsenal de guerra do exército. Os animais ganham destaque nos cerimoniais, mas também atuam no combate militar. Em muitas regiões não é possível fazer a patrulha patrimonial a pé ou com veículo, então nesses casos os cavalos são usados”, conta o diretor da coudelaria, o coronel Leandro Sicorra Wilemberg.
Produção de cavalos militares segue planejamento de cinco anos
A coudelaria entrega ao Exército cerca de 150 cavalos por ano, prontos para uso militar. O planejamento da produção começa cinco anos antes da entrega dos animais.
No primeiro ano, a administração define o planejamento financeiro que custeia a criação. No segundo ano ocorre o emprenhamento das éguas. Os potros nascem 11 meses após a inseminação. Após três anos de criação, os cavalos passam por doma e treinamento.
A equipe técnica avalia linhagem genética e desempenho físico antes de definir o destino de cada animal. Em 2025, a coudelaria entregou 170 cavalos ao Exército. O volume representa, em média, um animal domado e pronto para uso a cada dois dias.
Entre as características desejadas em um cavalo militar estão pelagem uniforme, dorso forte e proporcional, pescoço alongado, membros fortes e bem aprumados e boa capacidade cardiorrespiratória. Os animais também precisam demonstrar aptidão desportiva e capacidade para patrulhamento ostensivo.
“Esses animais são patrimônio do governo. A produção em média custa R$ 7 mil. Não realizamos venda, apenas doação para os órgãos que solicitam. Mas temos animais com genética de grandes campeões“, afirma Wilemberg.

Criação no RS atende forças armadas de países da América Latina
No Brasil, os cavalos militares cumprem diferentes funções. Parte dos animais participa de atividades cerimoniais nos três regimentos de guarda do Exército em Brasília, conhecidos como Dragões da Independência. Unidades militares no Rio de Janeiro e em Porto Alegre também utilizam os equinos.
Outra parcela atua no patrulhamento de campos de instrução e áreas militares. Os animais atendem à Escola de Equitação do Exército, responsável pela formação de oficiais na prática equestre e pelo incentivo ao hipismo brasileiro.
A Força Aérea Brasileira, por sua vez, utiliza cavalos da coudelaria em atividades de patrulhamento. Polícias militares de diversos estados solicitam equinos para policiamento ostensivo e para unidades de choque.
O criatório mantém ainda intercâmbios com Forças Armadas de países da América Latina, com troca de animais e material genético. “Dentro do possível a gente consegue alinhar o desporto e a atividade militar. Temos bons resultados em campeonatos internacionais”, destaca o coronel Wilemberg.
Treinamento adapta características de cada raça às funções militares
A coudelaria mantém diferentes raças de cavalos com características voltadas ao uso militar. Entre elas estão:
- o brasileiro de hipismo (BH)
- o puro-sangue inglês (PSI)
- o bretão
- o cavalo crioulo
- o polo argentino.
De acordo com a seção técnica da coudelaria, o BH apresenta forte aptidão para equitação. O principal destaque do plantel de Rincão é o cavalo brasileiro de hipismo. A propriedade militar mantém mais de 800 exemplares da raça e lidera a criação no país.
Já o cavalo crioulo atende com frequência às demandas de polícias militares para patrulhamento ostensivo. O bretão, por sua vez, exerce função estratégica na reprodução.
As éguas bretãs atuam como receptoras de embriões de outras raças. A técnica permite o desenvolvimento genético de diferentes linhagens. A coudelaria de Rincão figura entre os criatórios pioneiros do Brasil nessa prática e mantém posição de referência na América Latina, enviando animais para a Argentina e o Paraguai.
“Nós procuramos extrair de cada animal, independente da raça, o melhor resultado. Claro que alguns animais podem oferecer mais, temos casos de exemplares que ficaram na ativa por 30 anos. Outros, por razões individuais de saúde ou acidentes, podem ficar tempo menor, 15, 20 anos. Mas nosso trabalho é buscar desenvolver cada um para desempenhar tanto o desporto quanto o uso militar”, afirma o tenente Lucas Melantonio, chefe da seção técnica da coudelaria.

Criação dos cavalos militares em São Borja completou 104 anos
De acordo com os registros históricos da Coudelaria e Campo de Instrução de Rincão, a criação de cavalos para uso militar no Brasil começou no século XVII, no período colonial, em Pernambuco. No Rio Grande do Sul, a primeira fazenda militar surgiu em 1737 com a Estância Real de Bojuru.
No século XVIII, a área atual da coudelaria integrou a Estância de São Gabriel, da Companhia de Jesus. Em 1843, o Estado incorporou as terras e as arrendou a fazendeiros. O território retornou ao Ministério da Guerra em 1891. Em 1922, o Rincão de São Gabriel tornou-se oficialmente a Coudelaria de Rincão.
Ao longo do século XX, o Exército manteve várias propriedades de criação. Em 1950, o país possuía nove coudelarias: Rincão (RS), Saycan (RS), Avelar (RJ), Campos (RJ), Pouso Alegre (MG), Monte Belo (MG), Tindiquera (PR), Campo Grande (MS) e Campinas (SP).
A mecanização das Forças Armadas reduziu a necessidade de cavalos. No início da Segunda Guerra Mundial, em 1939 e 1940, o Exército possuía 22.810 equinos. Hoje, o efetivo soma 2.181 animais.
Em 1975, o Exército extinguiu as coudelarias em atividade, inclusive a de Rincão, e transferiu os plantéis para Campinas. Em 1987, o Ministério do Exército decidiu fechar a unidade paulista e recriar a coudelaria no Rio Grande do Sul, devido à maior área disponível e à pressão da expansão urbana em Campinas. Desde janeiro de 1988, Rincão funciona como a única coudelaria do Exército Brasileiro.
Brasil
Os políticos que fizeram de SC o estado mais conservador do país
Santa Catarina é reconhecido como um dos estados mais conservadores do Brasil, marca que está atrelada ao peso eleitoral de pautas tradicionais, à forte votação em candidatos identificados como sendo do espectro da direita, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e à presença consolidada de lideranças alinhadas a valores como família, segurança pública e economia liberal.
Esse perfil da política catarinense não é fruto de uma única eleição nem de um único grupo político. Diferentes gerações de líderes construíram esse legado, impulsionadas também por características sociais, culturais e econômicas próprias do estado.
Para o analista político e pesquisador em Educação e Cultura Política da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), Daniel Pinheiro, o conservadorismo catarinense é resultado da combinação entre força econômica e valores culturais. Segundo ele, Santa Catarina desenvolveu ao longo do tempo uma percepção de dinamismo econômico próprio — industrial, empresarial e agropecuário — que alimentou o discurso de que o estado produz muito e recebe proporcionalmente menos da União.
“Essa narrativa dialoga com valores de autonomia, eficiência administrativa e resistência a políticas redistributivas”, avalia. Ao mesmo tempo, ele considera que houve forte consolidação de valores sociais conservadores, influenciados por tradições comunitárias, religiosidade e herança cultural da imigração europeia. Essa base teria facilitado uma adesão mais rápida a posições de centro-direita.
Pinheiro também contextualiza o fenômeno dentro de um movimento internacional de fortalecimento de pautas à direita, perceptível nos Estados Unidos, na Europa e em países da América Latina. “É uma combinação de valores sociais e econômicos que encontrou eco na cultura do estado. Havia uma corrente política que estava adormecida e que ganhou força nos últimos anos, especialmente com o ambiente internacional e com a mobilização pelas redes sociais”, afirma.
SC ganhou uma dimensão simbólica dentro da política nacional
O professor de Ciência Política do Ibmec-BH, Adriano Cerqueira, concorda que Santa Catarina tem um perfil mais conservador, e destaca que essa característica não é recente. De acordo com ele, historicamente o estado oferece pouco espaço institucional para partidos mais à esquerda se consolidarem, especialmente em disputas majoritárias.
Embora a esquerda tenha representação pontual na política de Santa Catarina, enfrenta dificuldades estruturais para conquistar governo estadual ou formar maiorias consistentes. Cerqueira destaca que Santa Catarina tem forte presença de classe média, melhor distribuição de renda em comparação a estados mais pobres e menor dependência proporcional de programas de transferência de renda federais.
Nesse cenário, discursos fortemente voltados à ampliação de gastos públicos e redistribuição encontram menos aderência. “O eleitor que possui patrimônio e renda tende a se mobilizar por discursos de preservação desses ativos. Isso favorece propostas mais liberais na economia, com menor carga tributária e maior confiança no mercado”, explica.
O professor também destaca que, mesmo sem ter passado por uma experiência estadual que pudesse ter sido traumática com governos de esquerda, Santa Catarina desenvolveu forte antipetismo a partir da avaliação dos governos federais do PT.
Para Cerqueira, o estado ganhou ainda uma dimensão simbólica dentro da política nacional. “Santa Catarina virou quase um farol para o eleitorado conservador brasileiro. Políticos do estado têm se projetado nacionalmente com discursos contundentes na defesa de valores conservadores”, afirma.
Ele observa que a relevância política de Santa Catarina supera, em termos de influência, o tamanho do seu eleitorado. “Lideranças do estado acumulam grande presença nas redes sociais, visibilidade na Câmara e no Senado e passaram a ser referências no campo liberal-conservador”, diz.
A construção política do conservadorismo catarinense
Antes de se tornar um dos principais redutos de votos a Jair Bolsonaro no país, Santa Catarina já era governada por lideranças com perfil institucionalmente conservador. A Gazeta do Povo elencou alguns dos nomes que participaram dessa construção a partir da redemocratização do Brasil.
Jorge Bornhausen
Filho do ex-governador catarinense Irineu Bornhausen (1951-1956), Jorge Bornhausen ocupou o comando estadual durante a ditadura militar, após vencer a eleição indireta pela Arena, partido de sustentação do regime. Ele foi vice-governador de Santa Catarina entre 1967 e 1971, antes de assumir a principal cadeira do Executivo no mandato entre 1979 e 1982.
O período foi marcado pelo início do processo de reabertura política do país durante o governo do ex-presidente João Figueiredo, aliado de Bornhausen. Depois que José Sarney assumiu a Presidência da República, ele foi ministro da Educação entre 1986 e 1987, após ser um dos fundadores do PFL, partido onde Bornhausen se consolidou como uma das maiores lideranças da centro-direita brasileira nas décadas seguintes.
Apesar da candidatura de Aureliano Chaves pelo PFL, o partido sob a liderança de Bornhausen apoiou Fernando Collor de Mello nas eleições de 1989. Com a vitória de Collor, o cacique do PFL assumiu a Secretaria de Governo daquele que foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto após a redemocratização. No Congresso, ele tinha o papel de organizar a base de sustentação do governo Collor, que fracassou após as denúncias do esquema de PC Farias.
Na era Lula, o senador Bornhausen liderou a “oposição responsável” como presidente nacional do PFL entre 2003 e 2010, período marcado pelo escândalo do Mensalão. O PFL passou a se chamar Democratas em 2007 e Bornhausen deixou a sigla em 2011, quando se filiou ao PSD de Gilberto Kassab.

Esperidião Amin
Figura central da política catarinense desde os anos 1970, Esperidião Amin (hoje senador pelo PP) construiu uma das trajetórias mais longevas do estado. Foi prefeito de Florianópolis aos 27 anos (1975–1978), deputado federal, senador e governador em dois períodos (1983–1986 e 1999–2002).
Depois do primeiro mandato como governador, Amin foi eleito prefeito da capital, novamente, em 1988, mas se licenciou para disputar as prévias presidenciais do PDS para as eleições de 1989. Ele foi derrotado por Paulo Maluf, que representou o partido na corrida presidencial do ano seguinte.
Em 1994, Amin disputou as eleições como candidato a presidente da República pelo PPR e terminou na sexta colocação. Depois de um novo mandato no comando do estado, ele perdeu a disputa à reeleição em 2002 e foi batido, novamente, por Luiz Henrique da Silveira quatro anos depois.
Em 2008, perdeu a eleição à prefeitura de Florianópolis. Após a série de derrotas ao Executivo, foi eleito deputado federal em 2010 e reeleito como o candidato mais votado no estado.
Em 2015, votou pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Na eleição seguinte, foi eleito senador e passou a integrar a base do governo Bolsonaro no Congresso Nacional. Amin era cotado como um dos candidatos do ex-presidente da República na disputa pela reeleição neste ano, mas o PL terá uma candidatura dupla ao Senado catarinense com Carol de Toni e Carlos Bolsonaro.

Luiz Henrique da Silveira
Governador por dois mandatos (2003–2010), Luiz Henrique da Silveira foi deputado estadual, cinco vezes deputado federal, prefeito de Joinville por três mandatos e ministro da Ciência e Tecnologia no governo de José Sarney. Ele morreu em maio de 2015, aos 75 anos, vítima de um infarto. Na época, era senador por Santa Catarina.
Alinhado ao MDB histórico, Silveira permaneceu no partido durante a redemocratização do país e as eleições de 1989, quando parte da militância saiu para fundar novas siglas, entre elas o PSDB.
Embora não fosse um conservador ideológico nos moldes atuais, ajudou a estruturar uma cultura política de estabilidade institucional, protagonismo regional e forte organização partidária — elementos que mantiveram o campo da centro-direita dominante em Santa Catarina.

Raimundo Colombo
Governador entre 2011 e 2018 pelo PSD, Raimundo Colombo chegou ao cargo após trajetória como prefeito de Lages por três mandatos, deputado estadual, federal e senador. Seu discurso enfatizava responsabilidade fiscal, modernização da máquina pública e eficiência administrativa.
Colombo também tinha trajetória ligada a grupos da igreja católica, o que dialoga com a presença histórica da religiosidade na formação política catarinense. Durante seus dois mandatos, consolidou a imagem de gestão técnica e estabilidade institucional, mantendo o estado sob controle de forças políticas de centro-direita.

Carlos Moisés
A eleição de Carlos Moisés da Silva em 2018, na época pelo PSL, marcou um ponto de mudança. Oficial da reserva do Corpo de Bombeiros, sem carreira política anterior, foi eleito governador no segundo turno com mais de 71% dos votos válidos, impulsionado pela força de Jair Bolsonaro no estado. Seu plano de governo abordava apenas três tópicos: “desenvolvimento econômico”, “desenvolvimento social” e “infraestrutura, mobilidade e meio ambiente”.
Durante sua gestão, rompeu com Jair Bolsonaro e chegou a sofrer dois processos de impeachment, um deles por crime de responsabilidade pelo aumento do salário de procuradores do estado. O segundo, durante a pandemia de Covid-19, pela compra de 200 respiradores pelo preço de R$ 33 milhões, pagos antecipadamente e sem garantia de entrega. Moisés foi absolvido pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) nos dois casos.
Em 2022, Moisés tentou a reeleição ao governo, mas terminou a disputa como o terceiro mais votado, com 693.426 votos (16,99%). A disputa ficou entre Jorginho Mello e Décio Lima (PT). No segundo turno, Mello garantiu a vitória sobre o petista com cerca de 2.316.270 votos (70,79%).

Os políticos que sustentam o conservadorismo em SC
No plano mais recente, essa combinação entre valores econômicos liberais e conservadorismo nos costumes ganhou rostos e estratégia política bem definidos em Santa Catarina.
Jorginho Mello
O principal articulador desse campo é o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL). Ele iniciou a carreira política como vereador em Herval d’Oeste, cidade de 21.724 habitantes no meio-oeste do estado. Foi deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, deputado federal e senador, além de ter atuado como vice-líder do governo de Jair Bolsonaro no Congresso.
Em 2022, Mello foi eleito governador no segundo turno com 70,69% dos votos. À frente do governo e na presidência estadual do Partido Liberal, tornou-se uma das principais referências da direita no estado, com discurso voltado ao incentivo ao empreendedorismo e à autonomia econômica catarinense.

Caroline de Toni
No Congresso, Caroline de Toni (PL) se tornou uma das vozes mais identificadas com a direita brasileira. Desde o primeiro mandato, construiu projeção nacional em pautas ligadas à segurança pública, liberdades individuais, defesa da propriedade privada e embates ideológicos no Legislativo. Seu capital político está fortemente associado ao eleitorado conservador mobilizado desde 2018.
No segundo mandato, na presidência da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e como liderança da minoria, Caroline de Toni teve destaque por defender o equilíbrio entre os poderes, o voto impresso, a anistia, a ampliação do porte de armas e a liberdade econômica. Também atuou para aumentar a pena a invasores de terras, bem como a valorização da vida e da família.

Júlia Zanatta
Na Câmara dos Deputados, Júlia Zanatta (PL) representa uma nova geração desse mesmo campo político. Com formação em Direito e em Jornalismo, forte presença nas redes sociais e comunicação direta com o eleitorado, Zanatta combina pautas conservadoras com uma estratégia digital intensa, algo que se tornou central para a direita contemporânea.
De acordo com a apresentação no site oficial da deputada, Zanatta tem como base a família, é mãe e esposa, defende a vida desde a concepção e o papel dos pais na educação dos filhos, especialmente para protegê-los da imposição de conteúdos ideológicos que se afastem da busca pela verdade e da formação do pensamento crítico.
A defesa das liberdades individuais integra um dos pilares do mandato dela. Entre as principais bandeiras estão a defesa do armamento civil para legítima defesa da vida e da propriedade; ações que aumentem a segurança jurídica; a defesa da liberdade de expressão; a luta por menos impostos; a liberdade econômica, marcada recentemente por uma luta firme contra o Drex; além do fortalecimento do agronegócio e de mais autonomia para os estados.

Ana Campagnolo
Na Assembleia Legislativa, a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PL) ocupa papel semelhante no âmbito estadual. Professora e historiadora de formação, construiu trajetória política associada a pautas conservadoras, especialmente nas áreas de educação e costumes.
Eleita pela primeira vez em 2018, tornou-se à época a deputada estadual mais jovem de Santa Catarina. Em 2022, foi reeleita com 196.571 votos, a maior votação da história para o cargo no estado. Autora de livros com críticas ao feminismo, Campagnolo é uma das principais vozes do campo conservador no Legislativo catarinense.

Jorge Seif
Jorge Seif Júnior (PL) foi eleito senador nas eleições de 2022 com mais de 1,4 milhão de votos. Em seu mandato, tem atuado em pautas voltadas ao desenvolvimento econômico, à geração de empregos, à liberdade econômica e ao fortalecimento dos setores produtivos do país, com atenção especial a pesca, aquicultura, agronegócio e indústria nacional.
Participa de debates legislativos sobre políticas públicas voltadas à produção, ao crescimento econômico e à desburocratização. A atuação parlamentar de Seif inclui o acompanhamento de temas relacionados à segurança alimentar, ao desenvolvimento regional e à valorização de atividades produtivas ligadas ao mar e às águas continentais.
No Senado Federal, é membro titular da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), responsável pela análise de matérias relacionadas à política econômica, tributária, financeira e ao desenvolvimento nacional, além de outras. Também é vice-presidente da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo.

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